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José Ruy Lozano: A terrível busca por crianças de 'alta performance'

É preciso repensar a crescente pressão por resultados

 

Os recentes casos registrados de suicídio de estudantes do ensino médio - alunos de tradicionais colégios de São Paulo - causaram perplexidade e tristeza. Embora saibamos que o ato de tirar a própria vida é gerado por angústias de múltiplas origens, é preciso pensar de que maneira o ambiente escolar pode ajudar (ou atrapalhar) a prevenção de situações dessa natureza.

A discussão é ampla, mas há um aspecto a ser destacado: a busca incessante de alguns estabelecimentos escolares pela produção de crianças e jovens de "alta performance".

Os currículos escolares vêm mudando nos últimos anos, para o bem e para o mal.

Há algumas iniciativas bem-vindas de ampliação do universo cultural e das habilidades dos alunos, ao lado de outras bastante questionáveis, que submetem os estudantes a expectativas e pressões para as quais, ao que tudo indica, eles não estão preparados.

Muitos colégios, já nos anos iniciais, introduzem a disciplina empreendedorismo (o que quer que isso signifique para crianças de cinco anos) e vendem essa "novidade" como vantagem, a fim de seduzir alguns pais --clientes incautos, preocupados com o futuro dos rebentos.

Mais recentemente, alunos a partir de 14 anos passaram a participar de jogos envolvendo aplicações na Bolsa de Valores. Grupos entram em competição, e ganha a equipe que obtiver a maior rentabilidade nas simulações de investimentos.

O ensino de idiomas também tem se tornado obsessão. Com o discurso de formar cidadãos do mundo ou preparar os jovens para a concorrência no mercado de trabalho, colégios adotam currículos bilíngues, trilíngues e até "quatrilíngues" (essa palavra ainda não está dicionarizada, mas não tardará a se popularizar).

Inglês só não basta; afinal, as crianças precisam ter vantagens comparativas. Não importa que não consigam escrever com proficiência nem sequer em português...

Soma-se a essas práticas ditas inovadoras a incessante procura por desempenhos positivos em avaliações massificadas, como Enem, Prova Brasil e vestibulares.

O malfadado ranking de escolas no exame do ensino médio, a despeito de estar sujeito a manipulações marqueteiras fartamente demonstradas, serve como um instrumento de exclusão de alunos com dificuldades pedagógicas em diversos colégios particulares.

A Prova Brasil, por sua vez, começa a ser utilizada como indicador de produtividade de professores, e já existem propostas de vinculação do orçamento de escolas públicas aos índices obtidos na avaliação.

Tudo somado, mais e mais pressão sobre os alunos, que precisam entregar resultados!

Está na hora de repensar algumas práticas escolares, especialmente aquelas que visam atender a ânsia do mercado, a busca por sucesso a qualquer preço, à custa dos tempos e espaços que são próprios da infância e da juventude.

 

José Ruy Lozano
Sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Core (Comunidade Reinventando a Educação) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix

FOLHA DE SÃO PAULO – 25/05/2018