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Festas de escola que não divertem nem educam

 

Os alunos já estão cansados das escolas repetentes. Os pais, se ainda não estão, precisam ficar. Afinal, todo ano é a mesma coisa, não é verdade? E agora, que mais um está para começar, os pais bem que podem ajudar a escola que seu filho freqüenta a passar de ano e deixar de se repetir.


No início do ano letivo, as escolas entregam a programação do ano. É bom verificar se há previsão de festas com a presença dos pais e apresentação dos alunos. Se houver, procure saber o que os alunos irão aprender com a atividade, qual a inserção dela no projeto pedagógico da escola e se os alunos serão consultados sobre o interesse deles em se apresentarem publicamente. Esse questionamento pode ajudar a escola que seu filho freqüenta a ficar um pouco melhor. Sabe por quê?

É que, desde a educação infantil até o ensino médio, as escolas têm o hábito de realizar festas – com apresentação de alunos ou não –, seja para fechar o ano com uma bela despedida, seja para comemorar o final de uma etapa ou uma data especial. A questão é que, em muitas escolas, o que poderia ser uma excelente oportunidade para atualização da parceria família/escola acaba sendo um transtorno para pais, alunos e professores. Por quê? Porque essas escolas resolvem mostrar serviço aos pais com as tais festas, fazer marketing com elas. E, pelo jeito, funciona. Vejam o que me contou um professora.

Ela trabalha com educação infantil, o que significa passar o ano com crianças entre dois e seis anos. A escola, com o apoio dos pais, decidiu fazer um show com apresentação das crianças, as quais ensaiaram para representar uma peça infantil. No dia marcado, tinha de tudo: criança chorando, aluno se recusando a colocar a fantasia, pais reclamando que professores não haviam sido competentes para convencer o filho a decorar o texto etc.
Como se não bastasse tudo isso, alguns pais se envolveram, durante a apresentação, em uma discussão porque um queria filmar, outro falar no celular e outro reclamar. Tudo em nome do filho.

Na verdade, nada do que acontece nesse tipo de festa é em favor da educação. Professores conscientes sabem que essa atividade não envolve nem diverte e muito menos contribui para a educação da criança, já que o objetivo é uma apresentação correta para adulto ver.

Isso impede que a criança erre, que tenha escolha, que trabalhe sem pressão. Representar uma peça pode ser uma atividade muito produtiva, fonte de aprendizados diversos para os alunos, desde que o objetivo prioritário seja esse, e não o uso da criança para mostrar o que a escola é capaz de fazer. E, quando os pais se preocupam mais em fotografar e filmar em vez de curtir a apresentação do filho, aí é que colaboram mais ainda para que a escola se perca da função a que se propõe.

Em sua correspondência, uma leitora se queixa exatamente do fato de o aluno ser a menor preocupação de algumas escolas nessa situação. Ela conta que, na escola dos filhos, a apresentação que eles tanto se empenharam em ensaiar foi simplesmente cancelada sem nenhuma explicação, por telefone e na noite anterior à data prevista. O que fazer com a decepção dos alunos? A escola não se importou com o fato. E mais: a mãe testemunhou crianças pequenas se

apresentando tarde da noite, quando normalmente já estariam dormindo, adolescentes atuando de modo a exaltar uma sensualidade precoce e alunos com pouca agilidade e desembaraço na dança colocados nas fileiras do fundo, quase escondidos da platéia. A leitora estava indignada e com razão.
Ainda há pais que pressionam a escola para que realize festas para os alunos exibirem seus talentos e suas habilidades. Mas a escola não tem essa função. Por isso, quando decide atender a essa demanda dos pais, acaba por perder um tempo precioso, que deveria ser dedicado ao aprendizado do aluno em atividades que até poderiam ser ricas, caso tivessem como foco o desenvolvimento do aluno, e não a exibição dele para os pais.

Rosely Sayão é psicóloga, consultora em educação e autora de “Como educar meu filho?” (Publifolha)

Texto retirado do site UOL